A B C D E F
G H I J K L M 

Total read books on site:
more than 10 000

You can read its for free!


Text on one page: Few Medium Many
(This book was
produced from scanned images of public domain material
from the Google Print project.)






PORTUGAL E MARROCOS

PERANTE A HISTORIA E A POLITICA EUROPEA

por

Carlos Testa

Capitão de mar e guerra


LISBOA

Typographia Universal

(Imprensa da Casa Real)

110, Rua do Diario de Noticias, 116

1888




ADVERTENCIA


Não é nova a idéa, ou talvez chimera, que constitue o objecto d'estas
linhas.

Quem agora as apresenta, ainda ha poucos annos as emittiu por incidente,
ao considerar uma questão de politica internacional que então se
ventilava.

A repetição do que então se consignou, explica-se pela obediencia aos
mesmos dictames de um sentimento intimo, talvez illusorio, mas que para
ser plausivel ou desculpavel, tem agora por si certa ordem de factos e a
perspectiva de phases politicas e combinações diplomaticas, que tornam
talvez opportuna a sua apreciação.

Tal é o motivo e o fim que pode justificar a repetição d'estas
considerações.

Lisboa--Janeiro de 1888.




I


Dos grandes continentes que compõem o denominado Velho Mundo, é a Africa
aquelle que ainda em grande parte mal devassado, se tornou modernamente
objecto de uma especial attenção das potencias Europeas.

Se o geographo, o geologo e o naturalista alli encontram amplo assumpto
para estudo, na delimitação de seus territorios, de seus extensos rios,
vastos lagos, asperas florestas, e na observação das feições do solo, e
de seus differentes productos, tambem aos homens d'estado, secundando as
vistas politicas e os variados interesses das potencias, não se tornou
indifferente a importancia que a estas póde advir no futuro, da
exploração d'aquelle vasto continente.

No decurso dos acontecimentos de que o Mundo é o grande theatro, e a
humanidade o actor, difficil cousa seria o pretender subordinar taes
acontecimentos a uma regra invariavel, de modo a sujeitar seus effeitos
a causas precisas. Problema assaz complexo seria pois o pretender
designar e precisar o que possa haver contribuido para o atrazo em que a
Africa ficou perante as outras regiões do Globo, mui posteriormente
descobertas e conhecidas. Todavia talvez se podessem apontar como causas
d'esse relativo abandono de tão vasta região, a influencia de um clima
em grande parte deleterio, as difficuldades materiaes de transpôr suas
inhospitas planicies e asperas cordilheiras, a influencia que a
escravidão e seu trafico podessem ter no desvio de praticas mais
conducentes á sua proficua exploração, e talvez mais do que tudo, a
attenção de preferencia dada para outros emprehendimentos que
eventualmente offereceram novas expansões á actividade humana. Mas,
cousa notavel, se a Africa na sua maior extensão se apresenta ainda hoje
por devassar nas suas regiões centraes, em contraposição deixa-nos vêr
na sua orla mais septentrional uma zona de territorio já conhecido e
explorado desde tempos os mais remotos, e na qual mais se disputaram os
pleitos em que a humanidade andou por seculos empenhada em luctas de
supremacia, mas onde ainda modernamente não se operou sensivel
modificação em suas condições semibarbaras de existencia e de viver
social, perante a grande transformação que o Mundo experimentou durante
as mais modernas edades.

Basta lançar uma vista sobre o mappa do Mundo, e folhear a historia do
passado, para se tornar evidente esta verdade, que ao passo que nos leva
a meditar nos commettimentos de outras eras, nos permitte evocar as
eventualidades do futuro.

Era limitada a area do Mundo conhecida na antiguidade. Abrangia ella na
velha Europa o grande tracto desde as regiões Boreaes até ao Atlantico;
na Asia as vastidões que desde a Scythia vão até á India Transgangetica
para o Oriente, e até á Arabia pelo Occidente; e na Africa o vetusto
Egypto, esse ancião dos povos, séde de uma das mais antigas civilisações
que a historia recorda, testemunhada pelas ingentes pyramides e
collossaes sphinges que por longo tempo causaram a desesperação dos
archeologos. Seguindo a orla septentrional d'este continente, a Lybia,
onde os Phenicios levaram suas colonias á fundação de Carthago,
deixa-nos vêr a vetustidade d'aquella parte do Globo que já para o
grande poeta do Lacio fornecia inspirações tiradas de factos coévos de
Dido e dos exules de Troia. Depois a Numidia até á Mauritania, banhadas
em seus littoraes pelo _mare internum_ ou Mediterraneo, até findar nas
columnas de Hercules.

A historia, portanto, durante milhares de annos, desde os tempos
heroicos da Grecia, desde as nacionalidades mais remotas, Egypcias,
Chaldéas e Assyrias, deixa-nos vêr as emigrações dos primeiros povos, a
vida das gerações que se succedem, as navegações dos Phenicios, a
grandeza de Carthago, a vastidão do poderio Romano, as invasões dos
Barbaros, a destruição d'aquelle imperio collossal, a formação de novas
nacionalidades, as invasões dos Sarracenos da Asia sobre os vandalos da
Africa, e depois d'alli sobre a Europa, e mais tarde as cruzadas
seguindo de Occidente sobre o Oriente.

A geographia á sua parte deixa-nos vêr que todos esses aturados
conflictos em que se decidiam pelo poder da força e pelo enthusiasmo das
crenças, as luctas em que ora o Norte assoberbava o Meio Dia, ora o
Oriente invadia o Occidente, ora se trocavam as invasões em sentido
inverso, tinham por ambito aquella limitada porção do Globo conhecido,
cujos littoraes eram banhados pelas aguas d'aquelle mar, ao qual por sua
situação bem cabia o nome de Mediterraneo.

Mas, se a obra dos seculos, mudando a face do Mundo moderno, deixava que
parte do antigo permanecesse quasi nas suas condições primitivas, ou
quasi esquecido dos obreiros da civilisação, á sua parte a historia da
humanidade, revelando as variadas tendencias de suas differentes epocas
e sociedades, tambem nos deixa vêr exemplos de nações ás quaes parece
que a Providencia commetteu uma ou outra missão a cumprir, em virtude de
caracteres peculiares de sua existencia e condições geographicas.

N'este sentido coube tambem a Portugal uma boa parte e um importante
papel a desempenhar nas evoluções sociaes pelas quaes o Mundo tem
passado. Paiz pequeno, mas situado na orla mais occidental onde a Europa
é banhada pelo Atlantico, foi a elle que competiu a missão de alargar os
horisontes da geographia, rompendo aquelle limite além do qual tudo era
desconhecido. No desempenho de tal encargo, não faltou aos dictames que
uma justa hombridade lhe podia impôr, assim como tambem não deixou de
mirar a um objectivo que significava uma conveniencia geral, a bem da
humanidade.

Assim foi, que quando ao deslisar da Edade Média D. João I conduziu suas
hostes á conquista de Ceuta, levando a guerra á Africa, obedecia ainda
áquelle impulso que vinha dictado pelo antagonismo de crenças e
resentimento de armas. Não estava ainda de todo extincto aquelle
espirito religioso, que quando levado até ao fanatismo, formára o ideal
do heroismo cavalheiroso das cruzadas. A guerra aos inimigos da cruz
como proseguimento das conquistas operadas sobre o crescente, e que fôra
o principio em que se baseára a monarchia fundada em Ourique, estava
apenas differida mas não finda. A guerra levada á Africa era pois o
proseguimento da conquista sobre terras de mouros, tão justificada
d'além, como o fôra nos Algarves d'aquem mar. Era a continuação da
pugna, já uma vez encetada, e depois addiada mas ainda não terminada,
contra os inimigos da fé. Era ainda dictada não só pelo ressentimento de
armas e por aquelle não amortecido antagonismo de crenças que primeiro
havia inspirado as cruzadas, mas a par d'isto por outra mira politica
não menos grandiosa em seu conceito, qual a de alargar pela conquista
material até aos _Algarves d'além mar_, o territorio e dominio da
monarchia, como sendo a mais facil conquista, e a mais natural expansão
do poderio portuguez.

Esse pensamento de dilatar na Africa tal conquista como territorio de
Portugal e não como feitoria colonial, quando proseguido e mantido,
poderia ter dado logar a uma phase politica de grande alcance futuro, e
que haveria formado de Portugal um grande estado europeu africano. Mas,
aventurando-se a outros emprehendimentos deixou de seguir um plano que
teria sido util para si, abalançando-se a outro que de futuro haveria de
ser mais util á humanidade. Assim foi que outros enlevos, outras
ambições, outros calculos de interesse, antecipando-se áquelle primitivo
movel moral, o vieram impellir ao empenho de procurar novas regiões,
transpondo o mar, alargando os limitados dominios em que a geographia se
achava contida.

Ceuta, o primeiro baluarte da Mauritania, foi o posto avançado para
assegurar o ponto de partida e franquear o caminho, que aquelle inclito
principe filho de D. João I, o immortal infante D. Henrique, preparava
aos que largando de Sagres haviam de explorar as costas desconhecidas,
desde o occidente, e a seguir para o sul, no continente africano. A obra
a emprehender era tal, que n'ella devia predominar ora o valor do
soldado, ora a coragem do marinheiro. Á consciencia da justiça que
auctorisava a guerra, ligava-se tambem a perspectiva de resultados
grandiosos para a sciencia, bem como de um alcance mais subido, desde
que redundavam em vantagem da humanidade.

N'esta ardua mas gloriosa tarefa, se ao cabo Tormentoso, vencido por
Bartholomeu Dias, se seguiu o caminho do Oriente ser aberto pelo Gama;
se á escola de Sagres se deveu o que era o resultado do arrojo e denodo
dos nautas, tambem é certo que a escola de Ceuta, Tanger, Arzilla e
Azamor, que deu em resultado a conquista do littoral Africano, foi a que
preparou e alimentou aquelle valor guerreiro, que durante quasi um
seculo tanto contribuiu para illustrar, por seus feitos no Oriente, o
nome portuguez.

Em toda esta obra grandiosa, Portugal, procedendo em harmonia com o
espirito da época, soube desempenhar-se nobremente da missão que lhe
competiu. Adquiriu para si uma gloria immorredoura, e alcançou uma época
de prosperidade, que havia de ser ephemera; mas tambem preparou os
elementos de uma das maiores revoluções que na ordem social, economica e
politica o Mundo viu.



Pages: | 1 | | 2 | | 3 | | 4 | | 5 | | 6 | | Next |

N O P Q R S T
U V W X Y Z 

Your last read book:

You dont read books at this site.